A estabilidade de uma carreira consolidada é, para muitos, o horizonte final do sucesso profissional. Para Liliane Toledo Malta Vieira, ou simplesmente Lila, esse porto seguro foi habitado durante quase três décadas. Com uma trajetória de 26 anos na educação, iniciada precocemente aos 15 anos como professora auxiliar, ela escalou a hierarquia do ensino infantil até a coordenação pedagógica de uma das instituições mais conceituadas de Guarulhos.
No entanto, em 2018, uma inquietação silenciosa começou a rivalizar com a segurança da CLT. A pergunta que Lila se fazia era, ao mesmo tempo, simples e aterrorizante: “Se eu não trabalhasse na área da educação, o que de fato eu faria?”.
A resposta não estava em editoras ou no mercado da moda, hipóteses que ela chegou a cogitar, mas sim na “pausa”. Lila percebeu que seu refúgio pessoal eram as cafeterias, o ambiente onde o tempo desacelera entre um doce e uma xícara quente. “Eu gosto de estar com as minhas amigas, eu gosto de estar com o meu esposo, sabe? Ter uma pausa. Eu gosto muito desse ambiente”. Foi ali que nasceu a semente da Litevù Caffeè.
A maternidade
A transição da sala de aula para o balcão não foi um salto no escuro, mas um movimento impulsionado por uma mudança tectônica na vida pessoal: a maternidade. Após enfrentar desafios para engravidar e passar por tratamentos, Lila deu à luz os gêmeos Estêvão e Liz. A chegada dos filhos trouxe a urgência de flexibilidade, algo que a rigidez de horários da coordenação escolar não permitia. “Eu queria tanto curtir a maternidade por um tempo”, relembra.
Aproveitando uma reestruturação na escola onde trabalhava, o Pequeno Príncipe, Lila optou pelo desligamento amigável, deixando para trás uma empresa que define como “maravilhosa”. Passou um ano e meio dedicada integralmente aos bebês antes de tirar o plano de negócios da gaveta.
O nome do empreendimento, Litevù, carrega o DNA dessa motivação: é a fusão de Li (de Liz) e Tevú (apelido carinhoso de Estêvão). “As pessoas acham que é algo francês, mas não, é só a mistura dos dois nomes”.

A estratégia do empreendimento
O romantismo do sonho de empreender logo encontrou o pragmatismo necessário para sobreviver no mercado. Inicialmente, Lila buscou imóveis que remetessem à sua memória afetiva: casas antigas, similares à de sua avó paterna no bairro da Ponte Grande. Contudo, mentorias de negócios, incluindo consultorias do Sebrae, recalibraram sua rota.
A empreendedora entendeu que, para o negócio prosperar, a visibilidade era inegociável. Embora bairros residenciais tivessem charme, a região central de Guarulhos oferecia o fluxo de capital. “Poderia dar muito certo [num bairro residencial], mas poderia ter mais sucesso se eu procurasse um lugar que eu tivesse mais passagens de pessoas e automóveis”.
Ela instalou a Litevù em um ponto cercado por hospitais, fóruns e consultórios, na Rua Jorge Street, 91. A estratégia provou-se acertada: durante a semana, o público é corporativo; aos sábados, a cafeteria vira destino de “turismo gastronômico”, recebendo clientes que a descobrem via Instagram ou Google, vindos de outras cidades e até estrangeiros.
Pedagogia do café
Se na escola Lila coordenava o ensino, na cafeteria ela educa o paladar. O diferencial competitivo da Litevù é o rigor com a matéria-prima. A casa trabalha exclusivamente com cafés especiais (acima de 80 pontos), fugindo da torra carbonizada dos cafés tradicionais de mercado, que ela descreve didaticamente como o processamento de “tudo o que sobra dos restos”.
“Experimenta um pouquinho sem açúcar, sem adoçante, porque você vai sentir que ele não é amargo”, costuma instruir aos clientes, desconstruindo o mito do café “extra forte”. No cardápio, clássicos franceses como o Croque Madame –cujo ovo estalado no topo lembra, segundo a tradição, o chapéu de uma dama– lideram as vendas ao lado de pequenos almoços rápidos, desenhados para a dinâmica do centro da cidade.
A realidade de empreender
Com a cafeteria prestes a completar um ano, Lila vive o paradoxo do empreendedorismo: buscou flexibilidade, mas trabalha o tempo todo. “Estou aqui todos os dias”, admite. A diferença, contudo, é a autonomia. Ela conta com apoio operacional para garantir o “tempo de maternidade” ao final do dia.
A transição financeira e psicológica, entretanto, é o maior desafio. Sair da previsibilidade do salário mensal para a volatilidade do faturamento exige estômago. “Quando você é CLT, faça chuva ou faça sol, o seu salário está ali. Quando você tem o seu próprio negócio, é você que tem que vender”. Apesar do “friozinho na barriga” constante e dos dias de movimento oscilante, a ex-professora não demonstra arrependimento.
A Litevù Caffeè não é apenas um negócio; é a materialização de uma nova identidade profissional que permitiu a Lila conciliar a ambição de criar algo próprio com o desejo inegociável de ver os filhos crescerem. Como ela mesma resume sobre a batalha diária de empreender: “É uma luta que você vai fazendo com a sua mente, com suas emoções”.
A reportagem foi publicada originalmente na revista do Guarulhos Todo Dia, a GTD+Negócios.
Você pode ler a edição completa aqui.
Litevù Caffeè – Cafeteria em Guarulhos
- Onde fica: R. Jorge Street, 91 – centro de Guarulhos
- Aberta de segunda a sábado
- Instagram: @litevucaffee