As profissões do futuro e a educação como protagonista da empregabilidade

Conversamos com Pedro Guerios, vice-reitor do Eniac, que detalhou as quatro áreas de crescimento mais promissoras no mercado de trabalho

Vinícius Andrade

redacao@guarulhostododia.com.br

(Imagem gerada por IA/Gemini)

Publicado em 06/01/2026 às 07:00 / Leia em 7 minutos

Enquanto a economia global passa por uma reestruturação acelerada por tendências tecnológicas e demográficas, o medo do fim das profissões é dissipado pela promessa de novos postos de trabalho. Dados do Relatório sobre o Futuro do Trabalho 2025, do Fórum Econômico Mundial, confirmam que, embora cerca de 92 milhões de empregos “sumirão” pelas tendências globais, cerca de 170 milhões de novas posições devem ser criadas nesta década, resultando em um aumento líquido de 78 milhões de empregos.

Essa transformação impulsionada por tecnologia, transição verde e mudanças demográficas exige um foco incisivo na formação de novos talentos e na requalificação dos colaboradores atuais. Para discutir como as empresas de Guarulhos podem se preparar e onde procurar os profissionais do amanhã, conversamos com Pedro Guerios, vice-reitor do Eniac, que detalhou as quatro áreas de crescimento mais promissoras.

As profissões do amanhã

O mercado de trabalho exige uma combinação de competências técnicas e humanas, com habilidades em inteligência artificial (IA) e big data e redes e cibersegurança projetadas para crescer em importância mais rapidamente do que quaisquer outras nos próximos cinco anos. Guerios destaca que este crescimento se concentra em quatro pilares principais, combinando tecnologia e a necessidade humana.

  • 1. Especialistas em Big Data e Tomada de Decisão. O primeiro pilar foca em profissionais que conseguem lidar com o imenso volume de dados gerados pela raça humana. A procura por big data specialists está entre as que mais cresce em termos percentuais, impulsionada pelos avanços tecnológicos. Guerios explica que o mercado está em rápida expansão para “pessoas que entendem grandes dados, para quem consegue gerir de alguma forma o que o mercado lá fora chama de big data”. O desafio é que, à medida que “tudo tem um sensor, tudo é mensurado”, os profissionais precisam saber como pegar “esses grandes números de dados e tomar decisão baseada nisso”.
  • 2. Designers de Experiência e Interatividade do Usuário (UI/UX). O segundo foco está na usabilidade e na empatia humana dentro da tecnologia. O sucesso de qualquer serviço ou produto digital, seja um aplicativo de banco ou um jornal, depende da sua intuitividade. Segundo Guerios, “as marcas que se dão bem são as marcas que são mais fáceis de usar, mais intuitivas”. Portanto, é importante “formar pessoas que entendem e têm essa empatia do usuário para criar serviços e produtos que a gente quer usar de verdade”.
  • 3. Redes e Internet das Coisas (IoT). O terceiro campo de crescimento, intimamente ligado à infraestrutura e à captura de dados, é a conectividade universal. Guerios enfatiza a necessidade de “pessoas que entendem a relação das coisas com a internet, dos dispositivos com a internet”. Este é um mercado que “não vai parar de crescer”, pois a tendência é que em breve “o seu óculos, seja a minha caneta, seja a nossa cueca, tudo isso eventualmente vai estar de alguma forma conectado à internet” para capturar dados e aprimorar produtos futuros.
  • 4. Saúde e Cuidado Humano. O quarto pilar, menos dependente de código e mais focado no contato humano, é o setor de saúde, incluindo cuidadores e psicologia. O relatório do WEF (World Economic Forum) projeta que funções de cuidado, como profissionais de enfermagem, assistentes sociais e profissionais de aconselhamento, crescerão significativamente devido a tendências demográficas, especialmente o envelhecimento da população. Guerios acredita que esta área oferece uma segurança de longo prazo contra a automação: “eu entendo que é a área da saúde como um todo, desde psicologia com a área de saúde mental”. Ele argumenta que “vai ser muito difícil a inteligência artificial conseguir trocar o terapeuta por um modelo de linguagem grande”, além de prever a necessidade de cuidadores para o Brasil, que é “mais velho a cada dia”.
Pedro Guerios, do Eniac
Pedro Guerios (Foto: Divulgação/Eniac)

Geração Z e o mercado de trabalho

Em Guarulhos, assim como globalmente, os empresários relatam dificuldades em atrair e reter a Geração Z. Pedro Guerios contextualiza essa tensão, observando que a crítica à nova geração é um “fenômeno cíclico da natureza humana”. Contudo, ele reconhece que existem agravantes atuais, como o envelhecimento da população brasileira e o fato de que a força de trabalho é hoje “uma força de trabalho global”, intensificando a competição por talentos.

A ascensão social das famílias também molda as expectativas. Muitos jovens, cujos pais trabalharam em ambientes de risco ou desgaste, procuram hoje “ambientes de trabalho mais controlados”. Além disso, distrações que promovem “gratificação instantânea”, como apostas e pornografia, contribuem para uma mentalidade que dificulta a resiliência no trabalho.

Para atrair esse talento, Guerios defende uma “reeducação dos dois lados”:

  • 1. Reajustar as expectativas do jovem quanto ao crescimento rápido, enfatizando que o sucesso exige aprendizado e a resolução de desafios.
  • 2. Reeducar o contratador para que ofereça empregos alinhados com “as expectativas do século 21”, incluindo flexibilidade (trabalho remoto/híbrido) e planos de carreira claros.

A educação como protagonista

Neste cenário de mudanças, a educação assume o papel de protagonista, oferecendo soluções que conectam os 13 mil alunos do Eniac “loucos para trabalhar”, com as demandas reais das empresas de Guarulhos. O Eniac atua como um “ecossistema de inovação”, focado em entregar “empregabilidade” e a “possibilidade de melhoria de vida”.

Ações do Eniac para a Geração Z

Eniac Academy (Ensino Médio e Experimentação): O trabalho começa cedo, com o Ensino Médio voltado para a “experimentação na vida do jovem”. Através de um diagnóstico inicial, o estudante entende seu perfil educacional e é exposto a diferentes profissões, muitas vezes descobrindo até do que que ele não gosta. A ênfase é em trazer relevância da educação, contextualizando o aprendizado em sala de aula com projetos práticos do mundo real, fazendo o aluno se sentir protagonista.

Eniac Link+ (Captação de Talentos): Para novos talentos na base, o Eniac criou o Eniac Link+, uma plataforma que promove workshops gratuitos. As empresas apresentam seus desafios, e os estudantes trabalham na solução através de projetos integradores do curso. Isso permite que as empresas identifiquem “quem tem aquele fit cultural com a empresa” e mostrem a facilidade dos alunos com certos assuntos, antes de formalizar a contratação.

Estágio Social (Ganha-Ganha e Relevância Curricular): Este programa aborda a necessidade de talentos e o impacto social corporativo (ESG). A empresa investe na educação do aluno, e o estudante entrega “horas de projeto prático” e soluciona “desafios da empresa dentro do currículo educacional do Eniac”. Isso garante que a experiência acadêmica esteja totalmente conectada com o mercado de trabalho e com o mundo real lá fora.

A disrupção no mercado de trabalho não é uma ameaça, mas um convite à adaptação. Em Guarulhos, a colaboração entre o setor produtivo e as instituições de ensino é a chave para transformar os desafios da Geração Z em oportunidades de crescimento global.

Assim como a mudança no mercado é cíclica, a capacitação é contínua, exigindo que as empresas invistam em upskilling (melhoria de competências) e reskilling (reorientação de aprendizado) para se manterem competitivas. O futuro pertence àqueles que equilibram a tecnologia com a intuição e a conexão humana.

Essa reportagem foi publicada originalmente na primeira edição da revista do Guarulhos Todo Dia, a GTD+Negócios.
Você pode ler a edição completa aqui.

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