Escolas de países como Estados Unidos, Finlândia e Suíça estão retomando o ensino da letra cursiva. A prática tinha sido abandonada há alguns anos, em meio à evolução tecnológica que aparentemente tornou obsoleta a chamada “escrita à mão”. Nova Jersey se tornou o mais recente estado dos Estados Unidos a adotar a exigência do ensino de caligrafia. No caso, para crianças entre 8 e 11 anos. Este é o tema de um artigo na mais recente edição da prestigiada revista científica “Nature”.
O artigo mostra que pesquisas mais recentes na área de neurociência indicam que escrever à mão melhora a habilidade das crianças em reconhecer letras e números. Ou seja, quem aprende a usar letra cursiva tem mais facilidade de ler. Audrey van deer Meer, neurocientista da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia, de Trondheim, afirmou à revista Nature que “ao escrever à mão, você está formando padrões motores complexos. Enquanto que, ao digitar, são apenas movimentos simples dos dedos”.
A cientista afirma ainda que, no país dela, a Noruega, crianças de seis anos recebem um tablet no primeiro dia de aula, no qual aprendem a ler e escrever. Agora, professores reclamam que têm alunos que mal sabem segurar um lápis. A cientista e vários colegas dela, da área de Neurociências, estão recomendando ao governo norueguês que retome a exigência de caligrafia.
Letra cursiva no Brasil
O Brasil e a França também são citados no artigo. No caso, como países que nunca abandonaram totalmente o ensino da escrita cursiva nos seus planos educacionais. Caio Fernando Oliveira, diretor acadêmico do Colégio Eniac, acredita entre os motivos para o ensino brasileiro não ter abandonado o ensino da letra cursiva estão o apego à tradição e a adesão mais lenta às mudanças tecnológicas. Já Victor Petroveski, vice-presidente da AEG (Associação das Escolas Particulares de Guarulhos), lembra que os educadores brasileiros sempre valorizaram também a capacidade da escrita cursiva em ajudar o desenvolvimento da coordenação motora fina dos estudantes. Ou seja, a habilidade manual fornecida pelo ato de escrever.
Caio Oliveira afirma que o próprio ato de escrever tende a ser cada vez mais valorizado como instrumento de aprendizado. Ele conta que no Colégio Eniac é adotado o método chamado WAC (sigla em inglês para Writing Across the Curriculum). O método, que desde a década de 1980 também é utilizado no MIT (Massachusetts Institute of Technology), indica o uso da escrita em todos os momentos do processo de ensino e em todos os cursos. “Quem escreve sobre um assunto, domina aquele tema com mais facilidade”, afirma o professor.
Já o vice-presidente da AEG, lembra que os pais brasileiros estão entre os motivos que fizeram o ensino do país manter o ensino da escrita cursiva por todos estes anos. Ele diz que quando os pais procuram uma nova escola, muitos se preocupam em informar o desempenho do filho na escrita cursiva ou cobram informações sobre como a escola lida com esse tipo de aprendizado. Victor Petroveski, que se diz um apaixonado pela área de Educação, diz que o ensino da escrita cursiva não está relacionado a uma única área profissional específica. Ele é benéfico para o desenvolvimento cerebral, ativando campos criativos. E isso será importante para qualquer profissão futura.
Leia mais: Ensino da letra cursiva: a tradição brasileira que outros países estão retomandoCNH em alta na cidade, mas autoescolas de Guarulhos criticam novas regras