É tarde de quinta-feira e o trânsito na Estrada Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira já está ruim. Ao lado das filas de carros formadas em direção ao Trevo de Bonsucesso, faixas, trailers e lonas mostram que o circo está na cidade. Está no Shopping Bonsucesso. Enquanto Guarulhos acontece em seu ritmo caótico e barulhento, um universo particular se organiza sob a sombra da grande tenda do Circo di Roma. Longe dos holofotes e do aplauso das sessões noturnas, a rotina de quem faz do espetáculo sua morada é feita de desapego, treinos constantes e uma rede de afetos que ignora fronteiras geográficas.
A paraguaia Elaine Del Sol Estrella, de 26 anos, é uma das protagonistas dessa vida itinerante. Artista de lira e faixa, ela representa a quarta geração de uma dinastia circense que começou com seu avô em Assunção. Elaine chegou ao Brasil contratada pelo Circo di Roma há cerca de um ano, após passagens por picadeiros da Argentina e do Chile.
Para ela, a mudança de país e de idioma faz parte do ofício. Embora admita que no início tudo é novo, a adaptação é facilitada por uma vida inteira de deslocamentos. Ela observa que o circo brasileiro é mais organizado em relação aos outros em que ela trabalhou nos países latinos. Mas a essência do treino e do risco é universal.

Para quem vê de fora, o glamour das acrobacias esconde a crueza da logística. No Circo di Roma, a casa é o motorhome, equipado como uma moradia completa: camas, televisão, geladeira, fogão, piso de apartamento. Uma autêntica casa sobre rodas.
É ali que Carla Kamylla Camargo, também de quarta geração, organiza a vida da família. Kamylla nasceu literalmente entre uma sessão e outra, na cidade de Itápolis, durante uma turnê dos avós. “Eu nunca mais voltei para Itápolis, não sei nem como é”, relata ela, ao Guarulhos Todo Dia, evidenciando que artistas circenses não tem raízes geográficas.

A rotina fora do picadeiro é diversa. No circo, ninguém faz uma coisa só. Kamylla, além de artista, atua na coordenação e na venda de ingressos. Quando o espetáculo no Circo di Roma termina, a lona não se cala. É o momento dos treinos. Elaine conta que o aperfeiçoamento é constante, seja pela manhã ou tarde, para garantir que o erro não aconteça no ar. E artistas experientes, como ela, treinam sem colchão de proteção no chão. Elaine diz que nunca sofreu nenhum acidente grave no trabalho.
Um dos maiores desafios dessa jornada é a educação. A itinerância exige que as crianças mudem de escola quase que mensalmente, acompanhando a temporada do circo que geralmente dura trinta dias em cada local.
Kamylla explica que o processo é amparado pela Lei Federal 6.533, de 1978, que garante a matrícula de filhos de artistas itinerantes em escolas públicas ou particulares em qualquer época do ano letivo. É um exercício de desapego e rápida adaptação. “A gente pega amizade na escola e, quando está criando o vínculo, já vai mudar e tem que dar tchauzinho”, explica a artista, que cresceu assim e se prepara para inserir seu filho, de quatro anos, no ensino escolar.
Ikher Erick Estrella, filho de Elaine, tem 7 anos e se adaptou bem ao Brasil, apesar das dificuldades iniciais do idioma. “Ele é muito inteligente. Foi muito complicado para ele a fala, mas agora está indo bem”, disse a mãe, orgulhosa. O pequeno está bem encaminhado para ser uma nova geração circense da família: gosta de fazer o palhaço e já demonstrou interesse no globo da morte.
A dinâmica escolar gera trocas ricas. Enquanto os alunos locais perguntam se no circo tem banheiro ou como eles dormem, os pequenos artistas levam para a sala de aula uma visão de mundo expandida por diferentes sotaques e paisagens.

O circo passou por diversas transformações nas últimas décadas. Quem é mais novo talvez não se lembre, mas até o início dos anos 2000 os circos que passavam por Guarulhos faziam espetáculos com animais, como elefantes, macacos, cavalos e grandes felinos. A prática se tornou proibida no estado de São Paulo a partir de 2005.
O circo permaneceu e se reinventou. Hoje, funciona como um momento para as crianças deixarem um pouco as telas e prestarem atenção em algo que acontece bem perto, no palco. No entanto, para atrair a atenção dos pequenos, a arte circense integrou elementos da cultura pop aos espetáculos.
O Circo di Roma aposta em uma estratégia que Carla Kamylla descreve como uma renovação constante e necessária. Segundo ela, a rotina no circo não é estática e exige que novas atrações sejam incorporadas para manter o interesse, unindo a nostalgia do picadeiro clássico, que atrai também os adultos, ao entretenimento de massa.
O Homem-Aranha, a Patrulha Canina e até dinossauros dividem o palco com trapezistas e malabaristas tradicionais no espetáculo Danúbio do Di Roma. Para a artista, essa mistura é o que garante a vitalidade da arte circense para as novas gerações, permitindo que o circo continue sendo um espaço de descoberta e surpresa.

A vida circense não é de luxo, mas de uma liberdade rara. “A gente acorda e não tem uma rotina certinha; acontecem imprevistos e temos que resolver”, diz Kamylla. O pagamento aos artistas é feito de forma semanal.
O Circo di Roma carrega uma tradição de mais de 30 anos. A empresa tem duas equipes diferentes, que realizam temporadas simultâneas. A que está em cartaz no Shopping Bonsucesso é gerenciada por Kamylla e seu marido, Matheus Pinheiro. São cerca de 20 a 25 profissionais que fazem o espetáculo acontecer. A outra equipe está em temporada em São Bernardo do Campo. Informações e ingressos estão disponíveis no site circoderoma.com.br.
Viver no Circo di Roma é habitar uma cidade que se desmonta e se reconstrói várias vezes ao ano. Para Elaine, Kamylla e todo artista com gerações no circo, o pertencimento não está no CEP da rua, mas no som da lona, na luz do picadeiro e na certeza de que, não importa a cidade, o espetáculo sempre precisa continuar. Vida longa ao circo!

Circo Di Roma no Shopping Bonsucesso
As sessões ocorrem de terça a domingo em horários variados. Durante a semana, de terça a sexta-feira, as apresentações acontecem sempre às 20h. Já aos sábados e domingos, a programação é intensificada com três sessões diárias: às 15h, 17h30 e 20h. A classificação indicativa é livre para todas as idades.
O circo tem ingressos promocionais de R$ 10. Mais informações, no Instagram @circodiromadanubio. Crianças de até 1 ano e 11 meses têm gratuidade garantida, desde que permaneçam no colo dos responsáveis.
O Circo di Roma está localizado no estacionamento do Shopping Bonsucesso, na Estrada Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, número 5308, no Jardim Albertina. É possível comprar os ingressos online, no site circoderoma.com.br, ou de forma presencial na bilheteria, pouco antes do espetáculo.
A temporada do circo no Shopping Bonsucesso está prevista para acontecer até 15 de fevereiro.