No século passado, Guarulhos já viveu o charme –e a decadência– dos cinemas de rua e das salas pioneiras que moldaram os bairros centrais. O Cine Star, o Cine República, o Cine São Francisco e o Cine Jade são alguns locais extintos que fazem parte de memórias de uma cidade e até de uma indústria cinematográfica que não existem mais. Já nos 1990, era o Cine Poli-Center o grande ponto de encontro para ver filmes em tela grande por aqui. Foi lá que guarulhenses viram arrasa-quarteirões como Space Jam (1996) e Titanic (1997). No entanto, foi em setembro de 1999 que Guarulhos inaugurou um gigantesco complexo de salas, então administrado pela rede australiana Hoyts General Cinemas.
Com 15 salas, foi anunciado “como o maior complexo de cinema do país”, com 4.250 poltronas distribuídas em 8.500 metros quadrados de construção. De acordo com reportagem da Folha de S. Paulo na ocasião, o investimento foi de R$ 15 milhões –em valores atuais, considerando o IPCA (índice oficial de inflação do Brasil), é algo equivalente a mais de R$ 72 milhões.
Para uma cidade que até então se via limitada às três salas do Poli Shopping, a chegada de um complexo com 15 salas foi um choque cultural e tecnológico. Antes disso, ver um grande lançamento com uma qualidade extra exigia uma ida ao Center Norte ou Shopping D, na zona norte da capital.
A Hoyts trouxe para Guarulhos sua única e última incursão no Brasil. O estilo de operação era robusto, focado na experiência de “multiplex” que transformou o cinema em um destino regional. Não eram apenas os guarulhenses que ocupavam as poltronas. O cinema tornou-se o polo cultural de cidades vizinhas como Arujá, Itaquaquecetuba e Mairiporã, que careciam de salas próprias.

Em julho de 2009, o cenário mudou. Em uma transação de R$ 20 milhões (de acordo com a Istoé Dinheiro), a gigante norte-americana Cinemark adquiriu o complexo após uma disputa acirrada com a mexicana Cinépolis. Naquele momento, Guarulhos vivia uma efervescência econômica, e o cinema do Internacional era um dos ativos mais cobiçados do setor, sendo um dos dois complexos mais movimentados de todo o Brasil.
A mudança de bandeira foi gradual, com a promessa de manter a alta tecnologia e o conforto que já eram marcas registradas do local. Contudo, para quem frequentou o cinema do Internacional nos anos 2000, a saída da Hoyt’s marcou o fim de uma era. A Cinemark trouxe a eficiência de uma gigante que já opera centenas de salas e milhões de ingressos, mas a memória afetiva permanecia ligada ao logotipo clássico da rede australiana que apresentou o conceito de “blockbuster moderno” a Guarulhos.