Guia para recarga de carros elétricos em condomínios: direito, riscos e segurança

A eletromobilidade em condomínios é uma revolução inevitável. E tecnicamente desafiadora

Redação Guarulhos Todo Dia

redacao@guarulhostododia.com.br

(Foto: Banco de Imagens)

Publicado em 18/04/2026 às 17:13 / Leia em 5 minutos

por Eduardo Henrique Martins*
A eletromobilidade nos condomínios já é realidade, impulsionada em São Paulo pela Lei Estadual nº 18.403/2026, que garante ao condômino o direito de instalar carregadores de veículos elétricos (SAVE) em vagas privativas. E, também, pela atualização da Instrução Técnica 41 do Corpo de Bombeiros. Esse direito, porém, está condicionado à viabilidade técnica: é indispensável atender às normas ABNT NBR 5410, NBR 17019/17141, IT‑41 e futuras exigências estruturais mais restritivas (chuveiros automáticos – sprinklers, detecção, confinamento e ventilação de subsolos). O ponto central permanece: a física do incêndio não se adapta à lei; é a edificação que precisa se adaptar ao novo risco.

O incêndio em veículo elétrico não é equivalente ao de um veículo convencional. A fuga térmica da bateria gera reação autossustentada, calor intenso e rápido, liberação contínua de gases inflamáveis e tóxicos e possibilidade de reignição. As temperaturas podem ultrapassar 1.000°C, com duração maior e liberação de calor mais rápida, reduzindo a eficácia de extintores portáteis e de linhas de água de baixa vazão. Trata‑se de um fogo mais persistente e agressivo para a estrutura, instalações prediais e equipes de resposta.

Em garagens subterrâneas ou mal ventiladas, a fumaça é o fator de risco dominante: pé‑direito baixo, grande densidade de veículos e rotas de fuga compartilhadas com circulação de carros criam cenário crítico. A combustão de baterias e materiais associados pode liberar, além de monóxido de carbono, gases corrosivos e altamente tóxicos, causando perda de visibilidade, desorientação e incapacitação rápida, muitas vezes antes que o fogo se espalhe. A evacuação pode se tornar inviável em poucos minutos, tornando essenciais o controle de fluxos de ar, exaustão mecânica e compartimentação efetiva.

O impacto térmico sobre a estrutura é frequentemente subestimado. A proximidade entre vagas e pilares/vigas faz com que elementos estruturais sejam diretamente expostos a temperaturas superiores a 500°C em poucos minutos. O concreto inicia degradação relevante a partir de 300°C e perde severamente resistência acima de 500–600°C, com fissuração, spalling e exposição de armaduras. O aço perde resistência desde cerca de 400°C, podendo ter redução próxima de 50% em torno de 600°C. Um veículo em fuga térmica próximo a pilares, vigas de transição ou lajes fortemente armadas pode induzir falhas localizadas, redistribuição não planejada de esforços e, em situações extremas, colapso parcial ou progressivo, sobretudo em subsolos.

Guia para recarga de carros elétricos em condomínios de Guarulhos
(Infográfico: NotebookLM/GTD)

A instalação de SAVE também sobrecarrega instalações elétricas, muitas vezes antigas e subdimensionadas. Sobrecargas, aquecimento de condutores e quadros, degradação de isolação, esforços térmicos em dispositivos de proteção e uso de tomadas comuns como solução improvisada aumentam o risco de curtos‑circuitos, arcos elétricos e incêndios em quadros, eletrocalhas e shafts. Esses eventos podem comprometer a alimentação de emergência, ventilação, alarme e bombas de incêndio, gerando efeitos em cascata.

Tubulações em PVC presentes em subsolos são outro ponto sensível. Sob altas temperaturas, podem amolecer, deformar, romper e se desprender, danificando outros sistemas. Em travessias de lajes e paredes compartimentadas sem selagens adequadas, a destruição dessas tubulações abre caminhos para o fogo e a fumaça, o que amplia o número potencial de vítimas.

O risco decorre da combinação de calor elevado e prolongado, fumaça tóxica confinada e tempo de exposição superior ao previsto em muitos projetos originais, somada à vulnerabilidade elétrica e à quebra da compartimentação. Em campo, são comuns: uso de tomadas comuns para recarga, ausência de circuitos dedicados, exaustão insuficiente, detecção limitada ou inexistente, alta densidade de vagas junto a pilares e tubulações, rotas de fuga parcialmente obstruídas e falta de plano específico para veículos elétricos.

Em incêndios com baterias, a ação de moradores e brigadas internas é bastante limitada: extintores têm baixa eficácia, o risco de reignição é alto e os gases podem incapacitar rapidamente. A diretriz é clara: combate apenas em estágio muito inicial no interior do veículo e com segurança absoluta; ao atingir as baterias a evacuação deve ser imediata, pelas escadas e jamais retorno para resgatar veículos ou bens.

A resposta adequada não é proibir a eletromobilidade, mas sim tratá‑la como um problema de engenharia. Isso implica projetos elétricos específicos com circuitos dedicados e proteção adequada; revisão de detecção, alarme, exaustão e compartimentação; avaliação do desempenho estrutural ao fogo e, quando necessário, reforços e proteções; além de gestão ativa, com planos de emergência e treinamento focado. Os riscos são conhecidos e as soluções técnicas existem, mas sua eficácia depende de rigor na aplicação. A eletrificação das garagens deve avançar sob o princípio fundamental da engenharia de segurança: prevenir é estrutural, reagir é emergencial.

*O engenheiro civil Eduardo Henrique Martins é especialista em segurança contra incêndios. Preside o Conselho Deliberativo da ASSEAG e é conselheiro estadual do CREA-SP

Essa coluna foi publicada originalmente na revista digital GTD+Negócios -> Leia a edição completa aqui

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