“Menina, me dá um café!”. Foi isso que Helena Raso ouviu há algum tempo, em uma reunião, sentada na mesma mesa do empresário que fez o pedido. A reação dela foi se levantar e responder: “Ok, eu faço essa gentileza de servir o senhor”. Vice-diretora da Regional Guarulhos do Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo), a empresária deu uma entrevista para a GTD+ Negócios, em que demonstrou essa mesma postura firme, prática e objetiva. Diante de manifestações de machismo, ela é capaz de reagir de forma altiva, mas sem confrontação.
Helena é diretora executiva do Grupo Santo Angelo, líder nacional no fornecimento de cabos de áudios. A indústria, em Guarulhos, fabrica mais de 50 produtos, como microfones, talkbacks e equipamentos de iluminação. O fato de ser mulher não é a única condição que exigiu resiliência na trajetória da empresária. Filha de Rogério Raso, que fundou a empresa em 1979, Helena também precisou demonstrar méritos próprios, para além de ser “filha do dono”.
Ela e a irmã mais nova cresceram brincando de bolinha nos corredores da empresa. Com cerca de 15 anos, a mais velha começou a ajudar os pais, durante as férias escolares. Ao começar na faculdade, passou a estudar de manhã e trabalhar à tarde. Até que o pai disse: “já que está fazendo Direito, você tem que aprender a ser advogada”. E ela foi fazer estágio em um escritório de advocacia. Até dizer para o pai: “Olha, acho que está na hora de voltar”.
Empresariado, na teoria e na prática
Foi aí que a bacharel em Direito foi “aprender a ser empresária”. Ela cursou Gestão Empresarial na FGV em Guarulhos. E, seguindo orientação de uma consultoria, foi fazer o chamado “job rotation” na empresa. Traduzindo: foi trabalhar durante um tempo em cada um dos departamentos da Santo Angelo, para entender o funcionamento de toda a indústria. “Eu passei em todas as áreas, inclusive na Produção. Fiz manutenção de máquina, aprendi a fazer ponta de cabo. Fiz tudo”, afirma Helena Raso.
Aos poucos, ela foi assumindo funções. Quando a empresa se mudou para o prédio atual, no Bonsucesso, ela trabalhava em Compras e participou do processo de aquisição de praticamente tudo para a nova sede. Depois, em um processo natural foi assumindo departamentos. De início, pela formação, assumiu o Departamento Jurídico. “Daí, a gestora de RH saiu e eu assumi o RH. Aí, como eu falava Inglês, peguei a área de Exportação. E agora estou com o Financeiro também. E acabou que virei diretora executiva”.
A conquista do respeito ao seu trabalho dentro da empresa pavimentou o caminho para o associativismo empresarial. Helena começou a participar das reuniões no Ciesp Guarulhos. Das reuniões dos núcleos, depois se tornou conselheira e entrou na liderança do Núcleo de Jovens Empresários. Com isso, acabou se aproximando da coordenação regional. E, em paralelo, viu o crescimento do espaço para outras mulheres, além dela, na atuação associativa. Helena também é vice-presidente da Associação do Pólo Empresarial de Guarulhos (Apeg).
“No começo, a gente via muito mais mulheresnas reuniões de RH. Mas hoje, quando tem reunião de diretoria, tem mulheres incríveis que trabalham aqui em Guarulhos. E cada uma tem a sua história. Eu me inspiro muito nessas mulheres. A minha mãe também, que trabalhou aqui na empresa por um tempo. Ela também me inspirou bastante, me ensinou muito”.
Helena Raso
A empresária, a empreendedora e os desafios de ser mulher
Como se não bastasse tudo o que já fazia, o trabalho na Santo Angelo aproximou Helena do mundo musical. Músicos estão entre os principais clientes da indústria de cabos de áudio. Ela se casou com Leandro Ramajo, músico, multi instrumentista e educador musical. Juntos, criaram uma escola de música e atuam como palestrantes e mentores. Os dois ajudam músicos a descobrir como conquistar espaço no mercado.
Helena Raso admite que, apesar das conquistas, ainda existem muitos desafios para as mulheres. A conciliação entre o trabalho e a vida privada ainda é muito diferente para homens e para mulheres. Ela conta que viu recentemente uma reportagem em que perguntavam o que cada um fazia ao chegar em casa. A maior parte dos homens dizia que sentava no sofá e ligava a TV. Já as mulheres respondiam que arrumavam a casa, lavavam a louça, colocavam a roupa para lavar e cuidavam das crianças.
“A vida ainda é assim”, afirma a empresária e empreendedora. Mas, na sequência, ela lembra que adora o que faz e como vive. “Tem dia em que, como para qualquer outro profissional, os problemas são maiores do que as alegrias. Mas a gente equilibra tudo isso. A Santo Angelo só existe hoje, só tem os produtos que tem hoje, porque ouve os músicos, ouve as necessidades deles. Essa é a parte que eu mais gosto”, afirma Helena Raso, fazendo a conexão entre a empresária, a empreendedora e a mentora.
- Essa reportagem foi publicada originalmente na revista digital GTD+Negócios -> Leia a edição completa aqui