Com uma proposta de reconhecimento cultural que vai além da culinária, personalidades ligadas ao turismo de Guarulhos promoveram, na terça-feira (24), na sede do Grupo Finger, no centro, uma degustação do guisado guarulhense e do sorvete de mandioca, prato e sobremesa que integram o movimento de consolidação da identidade gastronômica da cidade. O Guarulhos Todo Dia esteve presente no evento.
A iniciativa faz parte de uma série de ações conduzidas por um Comitê de Validação que trabalha para divulgar e fortalecer o reconhecimento do prato típico local. “O projeto busca afirmar a identidade cultural de Guarulhos por meio de sabores. Temos feito palestras a respeito, divulgamos o prato no último aniversário da cidade e queremos levar a mais lugares, como escolas e restaurantes”, afirmou o turismólogo Danilo Ramalho, que faz parte da comissão.
O guisado guarulhense, preparado pela renomada chef Adriana Bernardes, carrega referências históricas e relatos preservados pela tradição oral. A chef, que comanda a cozinha do pub e restaurante Sora Bernardes, é a responsável pelo desenvolvimento técnico e pela execução autoral da versão oficial do prato típico.
Em Guarulhos, o prato ganhou identidade própria ao reunir ingredientes que dialogam com a história indígena, colonial e comunitária local. “Uma família do Jardim Álamo, de sobrenome Caraça, relatou que seus antepassados já se alimentavam do guisado durante a tradicional Festa de Nossa Senhora do Bonsucesso, celebração realizada desde 1641, o que reforça a presença do prato em contextos festivos antigos do município”, explicou o historiador Elton Soares, também membro da Comissão de Validação.
O sorvete de mandioca é uma sobremesa caseira e contemporânea, associada à tradição alimentar do bairro Torres Tibagy, especialmente à família Evaristo Gimenes. É uma iguaria referenciada em eventos da prefeitura e passeios turísticos guarulhenses.
A Comissão de Validação do prato típico é formada também pela embaixadora gastronômica da culinária típica guarulhense, Araçari Salles. O grupo tem realizado palestras, ampliando o debate sobre identidade alimentar e cultura local. “O projeto tem potencial para impulsionar o turismo pedagógico, gastronômico e de negócios de Guarulhos”, apontou Araçari.

O guisado guarulhense
O guisado é preparado tradicionalmente em panela de barro. Aos poucos, misturam-se carne de frango, colorau, arroz branco, pinhão da araucária, mandioca, milho, sal, alho, cebola e coentro. Cada ingrediente carrega um capítulo da história local. O pinhão, por exemplo, semente da araucária, já alimentava os primeiros habitantes da região, os indígenas Maromomi.
Para a sobremesa, precisa de mandioca cozida, açúcar, leite, creme de leite e leite condensado. Bata tudo junto, ferva e depois deixe no congelador. Aí é só servir.
O guisado guarulhense e o sorvete de mandioca ainda não estão presentes no cardápio de restaurantes da cidade. O próximo passo do projeto é possibilitar o consumo do prato nos restaurantes.
Projeto de Lei
Além de trabalhar pelo reconhecimento cultural, a comissão também atua pelo reconhecimento legal. O Projeto de Lei Nº 22/2026, do vereador Guto Tavares, tem como objetivo instituir “o prato típico e a sobremesa típica do Município de Guarulhos, denominados Guisado Guarulhense e Sorvete de
Mandioca”. O texto já está na pauta da Câmara Municipal.
Veja o que diz um trecho do texto do Projeto de Lei:
“O Guisado Guarulhense possui raízes associadas às tradições religiosas e comunitárias do Município, conforme relatos históricos de antigos moradores do bairro Jardim Álamo, vinculados às celebrações da Festa de Nossa Senhora do Bonsucesso, realizadas desde o século 17. Sua composição reúne ingredientes
tradicionais –mandioca, milho, arroz branco, proteína animal e pinhão– preparados conjuntamente, em conformidade com práticas culinárias transmitidas ao longo das gerações.
Destaca-se, ainda, a influência dos povos indígenas que originalmente ocuparam o território guarulhense, pertencentes ao tronco linguístico Macro-Jê, cujos hábitos alimentares incluíam, segundo registros historiográficos, o consumo do pinhão e de frutos nativos, elementos que permanecem presentes na culinária regional e que conferem singularidade ao prato ora reconhecido.
(…) O Sorvete de Mandioca, por sua vez, decorre de práticas alimentares tradicionais surgidas com a difusão dos equipamentos de refrigeração doméstica no Brasil, a partir da segunda metade do século 20, notadamente em núcleos familiares do bairro Torres Tibagy, revelando processo de adaptação cultural e preservação de receitas típicas à luz das transformações tecnológicas.
Ambas as iguarias apresentam vínculo comum com a mandioca, cultivo tradicional em áreas de solo fértil do Município, especialmente nos bairros Bonsucesso e Torres Tibagy, refletindo práticas agrícolas familiares historicamente consolidadas.
A iniciativa contribui para a valorização do patrimônio cultural material e imaterial, para o fortalecimento da identidade municipal e para o estímulo à economia criativa e ao turismo gastronômico, além de possibilitar ações educativas e comunitárias voltadas à preservação das tradições locais.”