No Dia da Árvore, celebrado em 21 de setembro, o debate sobre a presença da cobertura vegetal nos centros urbanos ganha contornos urgentes que superam o paisagismo. A data coincide com um período em que as cidades brasileiras enfrentam eventos meteorológicos extremos mais frequentes --aqui em Guarulhos, por exemplo, a umidade atípica para o mês de setembro tem causado problemas como mofo. A escolha de onde plantar uma árvore, qual espécie selecionar e como conduzir o manejo são fatores decisivos de infraestrutura, planejamento do solo e segurança pública.
Em São Paulo, a legislação estadual determina a expansão das áreas verdes arborizadas como mecanismo para elevar os padrões ambientais das cidades. De acordo com levantamento da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo (Semil), a capital paulista contabiliza atualmente mais de 620 mil espécimes arbóreos catalogados em calçadas, praças públicas e canteiros centrais.
Apesar desse volume expressivo, a distribuição da vegetação ainda revela fortes disparidades. Dados do Censo 2022 conduzido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que um terço dos habitantes do Estado de São Paulo reside em vias públicas sem qualquer tipo de cobertura vegetal.
O déficit influencia na formação de ilhas de calor nas áreas de maior densidade habitacional e acentua a vulnerabilidade das periferias e bairros adensados frente às temperaturas elevadas e aos episódios de chuvas fortes.
Para tentar equilibrar essa carência sem criar transtornos estruturais, a implantação de novas mudas precisa seguir padrões biológicos e urbanísticos precisos. O plantio sem estudo prévio frequentemente gera conflitos com a rede de distribuição de energia elétrica, rompe galerias subterrâneas e danifica o pavimento.
Segundo a engenheira agrônoma Gisele Herbst Vazquez, diretora técnica do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado de São Paulo (Crea-SP), o trabalho exige rigor científico multidisciplinar. "A regra de ouro é muito clara: a árvore certa no lugar certo. A escolha da espécie não pode ser baseada apenas na estética, mas em uma avaliação técnica rigorosa de compatibilidade espacial e biológica, observando o sistema radicular, o porte e a arquitetura da copa para evitar o rompimento de calçadas, muros e galerias, além de conflitos com a rede elétrica", explica.
A especialista destaca que os benefícios trazidos por exemplares adequadamente alocados funcionam como barreiras ecológicas indispensáveis para as metrópoles contemporâneas.
Gisele Herbst Vazquez, engenheira agrônoma e diretora técnica do Crea-SPAs árvores são o exemplo mais perfeito de Soluções Baseadas na Natureza (SbN). Em vez de dependermos exclusivamente do concreto, utilizamos a própria dinâmica natural para proteger a cidade. Diante do calor extremo, elas funcionam como condicionadores de ar biológicos pelo sombreamento e evapotranspiração. Já nas chuvas fortes, a copa amortece a água e as raízes melhoram a infiltração da terra, reduzindo alagamentos e o colapso da drenagem pluvial
Ao lado das metas de expansão da flora, o cuidado com a manutenção preventiva tornou-se um capítulo central na gestão das cidades paulistas. Como resposta às alterações trazidas pela Lei Federal nº 15.299/2025, o Crea-SP instituiu no início do ano o Comitê Técnico de Normatização e Manejo Arbóreo. A nova regra federal fixou o prazo de até 45 dias para que os órgãos ambientais municipais respondam a requerimentos de poda ou supressão de árvores motivados por perigo de acidentes.
O dispositivo permite que, mediante a ausência de manifestação do poder público no prazo estabelecido, ações preventivas de corte emergencial ou poda sejam realizadas diretamente, desde que devidamente respaldadas por laudo conclusivo emitido por engenheiros agrônomos ou florestais registrados no conselho profissional. A meta das entidades de classe é garantir agilidade e proteção sem autorizar a erradicação indiscriminada do patrimônio ambiental urbano.
