‘A sensação é de insegurança’: Terceirização amplia sobrecarga de merendeiros em Guarulhos

Ao menos 250 cozinheiros foram remanejados no município e apontam falta de funcionários, maiores deslocamentos até o trabalho

Agência Mural

redacao@guarulhostododia.com.br

Área interna destinada aos lanches dos alunos em escola da rede municipal de Guarulhos (Foto: Prefeitura de Guarulhos/Arquivo/Divulgação)

Publicado em 30/04/2026 às 18:34 / Leia em 6 minutos

Por Gabrielly Souza, Agência Mural
Desde 2024, a rede municipal de ensino de Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo, passa por mudanças que impactam o cotidiano dos merendeiros. A principal delas é a terceirização das cozinhas em pelo menos 74 das 268 unidades de ensino da cidade. Segundo relatos de trabalhadores, a medida tem causado realocações, reduções de equipe e sobrecarga de trabalho.

Joana*, cozinheira concursada há três anos em uma escola da rede municipal, precisou mudar de local de trabalho após a cozinha da escola ser terceirizada. “A sensação é de surpresa e insegurança”, diz.

Ela deixou de trabalhar em um bairro próximo de casa e agora precisa sair ainda de madrugada para chegar a tempo. O medo passou a fazer parte da rotina, sobretudo por ainda estar em estágio probatório (período de avaliação de desempenho em que eventuais falhas podem resultar em desligamento).

Mesmo profissionais com longa trajetória na rede, como Carlos* e Luana*, com 18 e 16 anos de serviço, não foram informados sobre as mudanças. Eles tomaram conhecimento da terceirização em conversas informais, em outubro do ano passado. A confirmação oficial foi publicada no Diário Oficial, em 30 de setembro de 2025.

Por serem servidores públicos concursados, os cozinheiros das escolas não podem atuar em cozinhas terceirizadas. Por isso, são encaminhados para outras unidades de ensino do município ainda não privatizadas.

O modelo de cozinhas terceirizadas já resultou no remanejamento de ao menos 250 cozinheiros concursados, de acordo com a prefeitura de Guarulhos. O processo teve início em 2024, com 31 unidades, foi ampliado em 2025, alcançando outras 43 escolas.

A empresa contratada para assumir as cozinhas é a PRM – Serviços e Mão de Obra Especializada, com sede no bairro do Belenzinho, na zona leste de São Paulo. Ela presta serviço em unidades da rede municipal de São Paulo e, em Sorocaba, no interior do estado.

Novos desafios

Os merendeiros foram orientados pela prefeitura de Guarulhos a escolher novas unidades de ensino para trabalharem por meio de um sistema online, com base em listas publicadas no Diário Oficial. Mesmo após escolherem o novo local de trabalho, os profissionais ainda enfrentam dificuldades e falta de garantia sobre os novos locais de trabalho.

“Devido ao glaucoma, havia optado por um turno diurno. No entanto, poucos dias após iniciar na nova unidade, o horário foi alterado para o período noturno, até às 20h. Isso trouxe dificuldades em razão da saúde”.

Carlos, merendeiro escolar

Além disso, as equipes foram desmembradas. Profissionais que trabalhavam juntos há anos foram distribuídos em diferentes escolas, rompendo vínculos e rotinas já consolidadas.

O futuro é motivo de preocupação. Segundo os entrevistados, a permanência na função atual só está garantida pelos próximos dois anos. Após esse período, não há clareza sobre o destino dos trabalhadores.

Merenda de escola em Guarulhos
Merenda escolar sendo servida em Guarulhos (Foto: Márcio Lino/Prefeitura de Guarulhos/Arquivo)

Sobrecarga

A escola em que Janete*, com 18 anos de serviço público, trabalhava até a terceirização contava com oito merendeiros. Agora, a nova equipe, na nova unidade de ensino, tem seis, todos vindos de outras unidades de ensino. Com menos gente trabalhando, a sobrecarga aumenta.

“Eu não consegui uma vaga perto, mas teve gente que entrou agora e conseguiu”, relata. “Pela orientação da [equipe de] nutrição da prefeitura, não usamos açúcar nas refeições, então precisamos criar estratégias, como usar uva-passa ou outras frutas para adoçar. Ninguém vê o trabalho que dá para manter essas crianças bem alimentadas”.

Para Marta*, cozinheira há 17 anos, que após a terceirização não está fixa em uma unidade, o cenário é de desgaste acumulado. “É um serviço que exige muito: envolve limpeza, preparo, organização e fiscalização. Não é simples como muitos pensam”, relata.

Também há impactos na qualidade da alimentação escolar. Profissionais relatam falta de ingredientes e mudanças no cardápio. Em alguns casos, itens básicos teriam demorado meses para serem repostos, levando os profissionais a improvisarem alternativas para o preparo das refeições.

As condições de trabalho oferecidas pelas empresas terceirizadas também são um ponto de atenção. Os salários dos profissionais contratados ficam na mesma faixa dos concursados (em torno de R$1.900). Porém, funcionários da prefeitura contam com bonificações, incluindo gratificações e adicionais por distância do local de trabalho, o que pode fazer a remuneração chegar a R$3 mil, segundo os trabalhadores.

Os terceirizados contam apenas com vale transporte, alimentação e plano de saúde, com valores não confirmados pela empresa. Com a diferença, fica difícil reter mão de obra, o que obriga os cozinheiros da prefeitura a frequentemente serem deslocados para cobrir faltas.

De acordo com os merendeiros, houve casos em que o ano letivo de 2026 começou sem equipes completas, exigindo o deslocamento de cozinheiras concursadas para suprir a demanda em outras unidades — situação que, em alguns casos, ainda persiste, de acordo com os trabalhadores.

Em nota, o STAP (Sindicato dos Trabalhadores na Administração Pública Municipal de Guarulhos) se posicionou contrário à terceirização, destacando preocupações com a precarização do serviço, possíveis prejuízos aos trabalhadores e impactos na qualidade da merenda escolar.

O que diz a Prefeitura de Guarulhos

A Prefeitura de Guarulhos informou que a terceirização foi adotada devido ao alto índice de absenteísmo entre servidores do quadro, o que vinha comprometendo a regularidade do serviço. A terceirização seguiu os prazos estabelecidos pela Portaria nº 286/2026-SE, publicada no Diário Oficial em 30 de setembro de 2025.

Também em nota, a Secretaria de Educação do município reafirmou seu compromisso com a qualidade da alimentação escolar e com a transparência na gestão da rede municipal.

Sobre as alegações relacionadas ao cardápio escolar, a Secretaria esclarece que ele é planejado e supervisionado por um nutricionista responsável técnico, seguindo as diretrizes do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).

Nas escolas da rede municipal, tanto o café da manhã quanto o lanche da tarde incluem biscoitos, pães ou bolos, acompanhados de leite, suco ou iogurte. Também são oferecidas opções com frutas e cereais.

Em relação ao contrato de trabalho das cozinheiras terceirizadas, a Secretaria de Educação informa que, em fevereiro deste ano, foi firmado um novo contrato com duração de 12 meses, podendo ser renovado anualmente por até 10 anos, conforme o artigo 107 da Lei Federal nº 14.133/2.

*Para proteger a identidade dos entrevistados, esta reportagem adota nomes fictícios e omite o local de trabalho desses profissionais como medida de segurança.

*Este texto foi originalmente publicado na Agência Mural


LEIA TAMBÉM -> Exclusivo: o resultado da fiscalização do TCE-SP na merenda escolar em Guarulhos

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