A obra de R$ 1,4 bilhão da Sabesp para construir 38 km de tubulações e transferir água entre represas

Promessa de segurança hídrica trará obras em seis cidades; entenda a engenharia por trás da interligação Billings-Alto Tietê

Vinícius Andrade

redacao@guarulhostododia.com.br

(Foto: Divulgação/Sabesp)

Publicado em 23/01/2026 às 07:06 / Leia em 5 minutos

A Sabesp deu início a uma das intervenções mais complexas e custosas do plano de segurança hídrica da Grande São Paulo: a interligação definitiva entre a represa Billings e o Sistema Alto Tietê. Com um investimento projetado de R$ 1,4 bilhão, a obra tem como objetivo reduzir a vulnerabilidade da região metropolitana a estiagens, criando um caminho artificial para transportar grandes volumes de água de um reservatório para outro.

O projeto prevê a instalação de uma estrutura capaz de bombear até 4.000 litros de água por segundo do braço Rio Pequeno da Billings, em São Bernardo do Campo, até a represa Taiaçupeba, em Suzano, que integra o Sistema Alto Tietê.

A lógica operacional se baseia na disparidade de armazenamento: a Billings, sozinha, guarda mais água do que todo o Sistema Cantareira somado, enquanto o Alto Tietê frequentemente sofre com níveis mais críticos em períodos de seca.

O governo de São Paulo fez o anúncio, mas não informou um prazo para a obra ficar pronta.

Foto: Divulgação/Sabesp
No lado esquerdo, início da captação na Estação Elevatória de Água Bruta às margens do Rio Pequeno. No direito, Sistema Alto Tietê

A engenharia por trás da interligação

Diferente da estrutura montada às pressas durante a crise hídrica de 2014 e 2015, que funcionou até 2020 como uma medida emergencial, a nova interligação é desenhada como uma solução permanente. A antiga operação dependia de geradores a diesel e tubulações expostas, o que encarecia o bombeamento e eleva riscos de falhas e vandalismo.

O novo projeto prevê a construção de 38,1 quilômetros de adutoras de aço enterradas. Essas tubulações gigantescas, com diâmetros que variam entre 1,50 e 1,80 metro –altura superior à de uma pessoa média em alguns trechos–, cruzarão áreas urbanas de seis municípios: São Bernardo do Campo, Santo André, Ribeirão Pires, Rio Grande da Serra, Suzano e Mogi das Cruzes.

Os principais aspectos técnicos da obra da Sabesp incluem:

  • Capacidade de transferência de 4 mil litros por segundo, volume suficiente para abastecer continuamente cerca de 1,9 milhão de pessoas.
  • Instalação de uma Estação Elevatória de Água Bruta às margens do Rio Pequeno e uma subestação de energia, substituindo o uso de combustíveis fósseis por eletricidade, o que promete maior eficiência energética.
  • Tubulação 100% enterrada sob vias públicas, visando reduzir o impacto ambiental e os transtornos urbanos durante a execução, além de proteger o sistema contra acidentes.
Explicação da obra da Sabesp que pretende interligar Billings e Sistema Alto Tietê
(Infográfico: NotebookLM/Guarulhos Todo Dia)

Contexto de crise e torneiras secas em Guarulhos

O Sistema Alto Tietê abastece parte da zona leste de São Paulo, além de cidades como Suzano, Mogi das Cruzes, Itaquaquecetuba, Ferraz de Vasconcelos, Poá e Arujá. Em Guarulhos, o abastecimento de água vem principalmente do chamado Sistema Cantareira, mas a cidade também recebe água do Sistema Alto Tietê.

O anúncio da megaobra da Sabesp ocorre em um momento problemático para o abastecimento em Guarulhos e cidades vizinhas. Embora o governo estadual projete a interligação como parte de um plano de segurança hídrica até 2060, a realidade imediata da população tem sido marcada pela escassez.

A região atravessou em 2025 uma das piores estiagens da última década, com chuvas até 70% abaixo da média. O reflexo direto foi sentido nos reservatórios: o Sistema Cantareira atingiu níveis críticos, operando com cerca de 21% de sua capacidade em novembro de 2025.

Para os moradores de Guarulhos, a estatística se traduziu em desabastecimento real. Na semana do feriado de 20 de novembro, 36 bairros da cidade enfrentaram mais de três dias sem água nas torneiras. A Sabesp justificou o episódio como manutenção emergencial, chegando a utilizar caminhões-pipa para mitigar o problema, mas a recorrência de falhas na distribuição expõe a fragilidade do sistema atual.

Além dos cortes pontuais, a companhia mantém a prática de redução da pressão na rede durante o período noturno (das 19h às 5h) em toda a região metropolitana, uma manobra técnica para evitar perdas, mas que, na prática, limita o acesso à água para quem não tem reservas domiciliares.

Investimento alto e tarifa mais cara

A obra de R$ 1,4 bilhão faz parte das obrigações contratuais assumidas pela Sabesp após sua privatização em 2024. A empresa promete investir mais de R$ 5 bilhões em resiliência hídrica na Grande São Paulo até 2027. No entanto, a modernização da rede chega acompanhada de custos para o usuário.

Desde 1º de janeiro de 2026, a tarifa de água e esgoto em Guarulhos e demais cidades atendidas ficou 6,11% mais cara. O reajuste foi autorizado pela agência reguladora (Arsesp) sob a justificativa de recomposição inflacionária (IPCA) de 16 meses.

O governo do estado argumenta que não houve aumento real e que, se a empresa ainda fosse estatal, a tarifa seria 15% maior. No entanto, para o consumidor que convive com a insegurança de não saber se terá água ao abrir a torneira, a equação entre o aumento da conta e a promessa de obras futuras, como a nova interligação Billings-Alto Tietê, ainda precisa fechar.

Compartilhe!!

Siga o Guarulhos Todo Dia

Siga no Google News

DESAPROPRIAÇÃO

Veja o que o Metrô vai fazer no espaço onde hoje fica a padaria São Bento, na avenida Guarulhos

Oportunidades

Abertas inscrições para mais de 60 vagas de estágio no Aché Laboratórios

DESCANSO OU TRABALHO

Feriado de Tiradentes: O que abre e o que fecha em Guarulhos nos dias 20 e 21 de abril

TEA

Crise do TEA: Prefeitura contrata mais de 1.100 profissionais de Apoio Escolar

GTD+NEGÓCIOS

Ela faz Guarulhos correr: a empresária que trocou o escritório pelas corridas esportivas

PROJETO GRAFITE

Grafiteiros transformam barreiras antirruído da Via Dutra em arte

CONDOMÍNIO GTD

Guia para recarga de carros elétricos em condomínios: direito, riscos e segurança

Botecagem

Mais uma edição do festival Comida Di Buteco, sem bares de Guarulhos

GTD S.A.

Marriott, em Guarulhos, lança carta de drinks assinada pelo criador da espuma do Moscow Mule

ESTAÇÃO DUTRA

Começa a demolição de imóveis para obra do Metrô em Guarulhos

GTD S.A.

Prateleiras do Assaí no Bosque Maia ganham mais espaço para produtos saudáveis

JORNALISMO LOCAL

Guarulhos Todo Dia lança a 2ª edição da revista GTD+Negócios, com especial sobre o Metrô