A Sabesp deu início a uma das intervenções mais complexas e custosas do plano de segurança hídrica da Grande São Paulo: a interligação definitiva entre a represa Billings e o Sistema Alto Tietê. Com um investimento projetado de R$ 1,4 bilhão, a obra tem como objetivo reduzir a vulnerabilidade da região metropolitana a estiagens, criando um caminho artificial para transportar grandes volumes de água de um reservatório para outro.
O projeto prevê a instalação de uma estrutura capaz de bombear até 4.000 litros de água por segundo do braço Rio Pequeno da Billings, em São Bernardo do Campo, até a represa Taiaçupeba, em Suzano, que integra o Sistema Alto Tietê.
A lógica operacional se baseia na disparidade de armazenamento: a Billings, sozinha, guarda mais água do que todo o Sistema Cantareira somado, enquanto o Alto Tietê frequentemente sofre com níveis mais críticos em períodos de seca.
O governo de São Paulo fez o anúncio, mas não informou um prazo para a obra ficar pronta.

A engenharia por trás da interligação
Diferente da estrutura montada às pressas durante a crise hídrica de 2014 e 2015, que funcionou até 2020 como uma medida emergencial, a nova interligação é desenhada como uma solução permanente. A antiga operação dependia de geradores a diesel e tubulações expostas, o que encarecia o bombeamento e eleva riscos de falhas e vandalismo.
O novo projeto prevê a construção de 38,1 quilômetros de adutoras de aço enterradas. Essas tubulações gigantescas, com diâmetros que variam entre 1,50 e 1,80 metro –altura superior à de uma pessoa média em alguns trechos–, cruzarão áreas urbanas de seis municípios: São Bernardo do Campo, Santo André, Ribeirão Pires, Rio Grande da Serra, Suzano e Mogi das Cruzes.
Os principais aspectos técnicos da obra da Sabesp incluem:
- Capacidade de transferência de 4 mil litros por segundo, volume suficiente para abastecer continuamente cerca de 1,9 milhão de pessoas.
- Instalação de uma Estação Elevatória de Água Bruta às margens do Rio Pequeno e uma subestação de energia, substituindo o uso de combustíveis fósseis por eletricidade, o que promete maior eficiência energética.
- Tubulação 100% enterrada sob vias públicas, visando reduzir o impacto ambiental e os transtornos urbanos durante a execução, além de proteger o sistema contra acidentes.

Contexto de crise e torneiras secas em Guarulhos
O Sistema Alto Tietê abastece parte da zona leste de São Paulo, além de cidades como Suzano, Mogi das Cruzes, Itaquaquecetuba, Ferraz de Vasconcelos, Poá e Arujá. Em Guarulhos, o abastecimento de água vem principalmente do chamado Sistema Cantareira, mas a cidade também recebe água do Sistema Alto Tietê.
O anúncio da megaobra da Sabesp ocorre em um momento problemático para o abastecimento em Guarulhos e cidades vizinhas. Embora o governo estadual projete a interligação como parte de um plano de segurança hídrica até 2060, a realidade imediata da população tem sido marcada pela escassez.
A região atravessou em 2025 uma das piores estiagens da última década, com chuvas até 70% abaixo da média. O reflexo direto foi sentido nos reservatórios: o Sistema Cantareira atingiu níveis críticos, operando com cerca de 21% de sua capacidade em novembro de 2025.
Para os moradores de Guarulhos, a estatística se traduziu em desabastecimento real. Na semana do feriado de 20 de novembro, 36 bairros da cidade enfrentaram mais de três dias sem água nas torneiras. A Sabesp justificou o episódio como manutenção emergencial, chegando a utilizar caminhões-pipa para mitigar o problema, mas a recorrência de falhas na distribuição expõe a fragilidade do sistema atual.
Além dos cortes pontuais, a companhia mantém a prática de redução da pressão na rede durante o período noturno (das 19h às 5h) em toda a região metropolitana, uma manobra técnica para evitar perdas, mas que, na prática, limita o acesso à água para quem não tem reservas domiciliares.
Investimento alto e tarifa mais cara
A obra de R$ 1,4 bilhão faz parte das obrigações contratuais assumidas pela Sabesp após sua privatização em 2024. A empresa promete investir mais de R$ 5 bilhões em resiliência hídrica na Grande São Paulo até 2027. No entanto, a modernização da rede chega acompanhada de custos para o usuário.
Desde 1º de janeiro de 2026, a tarifa de água e esgoto em Guarulhos e demais cidades atendidas ficou 6,11% mais cara. O reajuste foi autorizado pela agência reguladora (Arsesp) sob a justificativa de recomposição inflacionária (IPCA) de 16 meses.
O governo do estado argumenta que não houve aumento real e que, se a empresa ainda fosse estatal, a tarifa seria 15% maior. No entanto, para o consumidor que convive com a insegurança de não saber se terá água ao abrir a torneira, a equação entre o aumento da conta e a promessa de obras futuras, como a nova interligação Billings-Alto Tietê, ainda precisa fechar.