A história vai completar trinta anos, em março do ano que vem. O jato executivo que se chocou contra uma montanha, na Serra da Cantareira, vinha de Brasília. Teve problemas, ao tentar pousar no Aeroporto de Guarulhos. A bordo, além dos dois pilotos, mais sete pessoas. Um segurança, um assessor e os cinco integrantes da banda Mamonas Assassinas. Não houve sobreviventes.
Os Mamonas foram um sucesso meteórico na indústria da música popular. Milhões de cópias vendidas, do único álbum que os rapazes tiveram tempo de lançar. Tudo durou não mais do que um ano. E olha que o rock debochado deles, virou, mexeu, aqui e ali, segue sendo ouvido.
Mas o que é que eu, pessoalmente, tenho a ver com isso? A profissão, né? Repórter da Rede Globo por quarenta anos, no Brasil e no Exterior, fui envolvido na cobertura jornalística da comoção que a tragédia causou. Inclusive do funeral, em Guarulhos, que movimentou a cidade e teve uma cobertura poucas vezes vista, no ar. Ao vivo, em TV aberta. A Globo montou três pontos de transmissão. No Cemitério Parque das Primaveras, onde seria feito o sepultamento, o repórter Rodrigo Viana mostrava os preparativos. Em frente ao Ginásio de Esportes Paschoal Thomeu, numa unidade móvel, quem ancorava era Carlos Tramontina, acompanhando o movimento em direção ao velório, na parte interna.
As estimativas variam. De 60 a 100 mil pessoas passaram por lá. E o meu posto foi dentro do ginásio, junto à enorme fila de despedida. Não sei exatamente quantas horas ficamos no ar, quase sem intervalos, mas foi quase a manhã inteira, atropelando a programação normal. É claro que, dos três repórteres, quem tinha condições de acrescentar mais, à cobertura, era eu, pela minha localização privilegiada. Sem muita possibilidade de deslocamento, é verdade, aprisionado por cabos, mas com a preciosa colaboração de valentes produtoras. Uma delas, a querida amiga Carmen Pecoraro. São jornalistas que não aparecem no vídeo, mas constroem grande parte do que ele mostra. O trabalho foi intenso, pra nós todos, na busca incessante por entrevistas, para preencher o tempo e traduzir, da melhor maneira possível, o clima ao redor, de imensa consternação. Além de ouvir algumas autoridades e muitos artistas, dos mais variados estilos musicais, conversamos com uma multidão de fãs anônimos. De todas as idades, cada um com sua motivação e seu sentimento pra estar ali. Lembro de uma avozinha dizendo que foi ao velório dos “meninos” por ter saudade dos próprios netos, da mesma idade, que ela não via há muito tempo.
Mas TV ao vivo, quase sem pausa, tentando não deixar a peteca cair, sabe como é…Não saem da memória as ratas, os micos, os erros, que bem poderiam ter sido evitados. Não queria ter trocado o nome de um famoso cantor sertanejo pelo do parceiro dele, já morto. Ficou chato. E não esqueço de uma mocinha que estava tão triste, quase chorando. Cabeça baixa, parecia rezar. Chamei. Ela se aproximou. Perguntei sobre a presença dela, ali. E ela:
-Ah, eu vim, mesmo, pra tentar aparecer na televisão. Quero ser atriz e fazer uma novela na Globo.
Tinha lá o seu talento teatral, a moça. A cena funcionou.
Fazer o que?

Alberto Gaspar é repórter e apresentador. Ele apresentou o programa Legião Estrangeira, na TV Cultura e foi repórter e correspondente internacional da TV Globo por 39 anos