Papai Noel existe? A resposta para essa pergunta pode depender muito da sua idade. Talvez você não acredite mais na figura mágica que mora no Polo Norte e sai distribuindo presentes pelas casas na madrugada de 25 de dezembro, a bordo de um trenó puxado por renas voadoras. Mas talvez você ainda acredite na magia do Natal. A época em que as diferentes famílias se reúnem para comer muito, falar muito e às vezes trocar presentes. Natal é família. E foi a partir da família que começou o amor de Apolo Constant –também conhecido como o Papai Noel do Parque Shopping Maia, em Guarulhos– pelo Natal.
Aos 68 anos, com uma barba branca natural cultivada meticulosamente desde o final da década de 1970 (época em que deixou a Força Aérea Brasileira), Apolo não precisa de muito esforço para transitar entre o cidadão guarulhense e a entidade mítica.
Para Apolo, o Natal não é apenas uma data; é uma herança matriarcal. Sua mãe, uma entusiasta fervorosa das festividades de dezembro, talvez não imaginasse que um de seus seis filhos transformaria essa paixão em ofício. Nascido em 1957 e radicado em Guarulhos desde os quatro anos de idade, Apolo construiu sua vida no município com a solidez de quem conhece cada esquina da cidade.
Antes de vestir o manto de veludo vermelho, Apolo trilhou o caminho sinuoso do empreendedorismo brasileiro. Foi proprietário de lojas de discos de vinil em Guarulhos (no bairro da Tranquilidade) e em Arujá –um negócio movido mais por amor à música do que por lucro, ele admite–, vendeu eletroeletrônicos, instrumentos musicais e, mais recentemente, doces para mercadinhos locais. É um homem de conversa fácil, uma habilidade lapidada por décadas de vendas e essencial para sua atual vocação.
Afinal, ser Papai Noel exige, acima de tudo, a paciência de ouvir.
A metamorfose de Apolo em “Bom Velhinho” começou com um telefonema fortuito no início de 2014. Sem que ele soubesse, uma amiga de sua filha caçula, Cecília, enviara uma foto sua para uma agência de casting. O perfil era inegável. Convocado para uma entrevista na Avenida Paulista, Apolo deparou-se com uma antessala repleta de candidatos idênticos a ele. “O que estou fazendo aqui?”, pensou, prestes a desistir. A polidez da recepcionista o manteve na cadeira. No dia seguinte, o contrato estava fechado.
Seus primeiros anos de ofício foram um teste de resistência. Alocado em um shopping de Itapecerica da Serra, a cerca de 60 quilômetros de Guarulhos, enfrentava uma maratona diária: saía de casa às nove da manhã e retornava no início da madrugada, queimando “um tanque de gasolina para ir e outro para voltar”. Mas a exaustão perdia para o encanto. Ele havia sido mordido pelo “bichinho” do Natal.

Apolo, contudo, recusa o rótulo de figurante estático. Para ele, o trono do shopping não é um assento passivo, mas um palco. Insatisfeito com o amadorismo, buscou profissionalização: fez cursos de contação de histórias, aprendeu a tocar gaita para entreter as filas e estudou a mitologia natalina. Durante a pandemia, reinventou-se como um “Papai Noel em Home Office” no Mauá Plaza, onde, isolado em uma cabine de vidro com microfone, chegava a tocar bateria para manter a interatividade viva, provando que o espírito natalino improvisa quando necessário.
Hoje, atuando no shopping central de sua própria cidade –um sonho perseguido com a insistência de quem enviava e-mails sem resposta até ser finalmente notado em 2023–, Apolo refina a arte do encontro. Ele entende que a fotografia é o desejo dos pais; a criança quer conexão. Usando o que chama de “linguagem infantil”, ele indaga sobre a escola e o “papazinho no prato”. Mais do que isso, Apolo adaptou-se aos novos tempos, estudando para acolher com sensibilidade crianças no espectro autista, um aprendizado que ele descreve com humildade.
Quando janeiro chega e o traje vermelho é guardado, Apolo não vai para o Polo Norte.
Ele retorna ao seu estúdio, o Old School Drums, na Vila Augusta. Ali, de fevereiro a outubro, o Papai Noel dá lugar ao professor de bateria que ensina rock dos anos 70, gospel ou sertanejo, respeitando o gosto do aluno. O trabalho é compartilhado no Instagram @apolo_noel. Ele também volta a vender seus doces, mantendo a vida de comerciante autônomo.
Em sua casa, a atmosfera natalina é contínua Casado há mais de quarenta anos com Leninha, a quem carinhosamente chama de “Leninha Noel”, ele vê nas filhas e “boas meninas” Rafaela e Cecília a extensão desse legado. Apolo Constant é a prova de que a magia não depende de renas voadoras, mas de um ser humano disposto a ouvir, a tocar um sino no corredor do shopping e a abraçar estranhos com a familiaridade de um velho amigo. Em Guarulhos, Papai Noel existe, e ele toca bateria.

Papai Noel no Natal do Parque Shopping Maia
- Horários de atendimento: Terça a sábado, das 14h às 17h e das 18h às 22h // Domingos e feriados, das 14h às 17h e das 18h às 20h // Segunda-feira – folga do Noel
- Endereço: Avenida Bartholomeu de Carlos, nº 230, Jardim Flor da Montanha – Guarulhos
- Instagram: @parqueshoppingmaia