Menos de 1% da população brasileira com indicação para cirurgia bariátrica consegue ter acesso ao procedimento. O levantamento foi feito pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM), com base em dados de 2020 a 2024. No período, foram realizadas 291.731 cirurgias bariátricas. Destas, 260.380 foram através de planos de saúde e 31.351 pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Ou seja, apenas 11% das cirurgias do período foram realizadas pelo SUS.
Atualmente, são mais de 14 milhões de brasileiros que seriam candidatos à cirurgia bariátrica e metabólica, usando como parâmetro a resolução mais antiga do Conselho Federal de Medicina (IMC acima de 40, sem doenças ou IMC acima de 35, com doenças). Com a nova resolução do CFM, que diz que pacientes acima de IMC 30 devem e podem ser operados também, desde tenham doenças agravadas pela obesidade, esse número aumentaria para mais de 25 milhões de brasileiros com indicação de tratamento cirúrgico, segundo o diretor e ex-presidente da SBCBM, Dr. Luiz Vicente Berti.

Como é o acesso à cirurgia pelo SUS, em Guarulhos
Como já explicamos em outro texto deste especial sobre obesidade, Guarulhos Todo Dia tentou conseguir informações com a Prefeitura de Guarulhos sobre os programas públicos da cidade, para combate a essa condição. No entanto, por duas vezes não tivemos nenhum retorno da assessoria de imprensa. Por isso, recorremos à Lei de Acesso à Informação (LAI). As informações abaixo vieram em resposta ao nosso pedido, feito via LAI.
No outro texto, nós abordamos o programa “Viver Saudável”, que aposta em orientações para revisão de hábitos de alimentação e prática de atividade física. Agora, vamos tratar do programa destinado a casos em que essa alternativa não funciona tão bem.
Segundo a Prefeitura de Guarulhos, a cidade adota desde 2015 o Protocolo de Atendimento da Linha de Cuidado de Sobrepeso e Obesidade. O protocolo estabelece critérios para que as pessoas atendidas nas UBSs sejam encaminhadas para os Núcleos de Atendimento à Obesidade, localizados nos CEMEGs Centro e São João.
Nos Núcleos de Atendimento à Obesidade, os pacientes têm acesso a “acompanhamento multidisciplinar em grupo e individual, com médico, nutricionista e psicólogo. A abordagem é cognitivo comportamental visando à mudança de comportamento. As estratégias comportamentais objetivam que o paciente identifique os estímulos que antecedem o comportamento compulsivo, bem como situações que facilitam a não aderência ao tratamento e, consequentemente, seu insucesso. A frequência dos grupos e consultas individuais é definida pela equipe do Núcleo”, segundo a prefeitura. Ou seja, mesmo aqueles encaminhados ao Núcleo ainda têm que passar por um longo processo antes de receber indicação de algum tratamento diferenciado.
Segundo a resposta oficial da prefeitura, “no município de Guarulhos a indicação para a realização de cirurgia bariátrica se dá exclusivamente pelos Núcleos de Obesidade. Isso se justifica pelo fato do tratamento cirúrgico ser indicado em alguns casos e da complexidade do tratamento em obesidade”. Na resposta, a prefeitura elencou os critérios adotados para indicação para cirurgia bariátrica. De acordo com a resposta, são os mesmos critérios definidos pelo Ministério da Saúde:
Critérios de Indicação:
– Indicações para o tratamento cirúrgico da obesidade (Portaria de Consolidação nº3, de 28 de setembro de 2017, que dispõe sobre as Diretrizes Gerais para o Tratamento Cirúrgico da Obesidade:
1.indivíduos que apresentem IMC 50 Kg/m²;
2. indivíduos que apresentem IMC 40 Kg/m², com ou sem comorbidades, sem sucesso no tratamento clínico longitudinal realizado, na Atenção Básica e/ou na Atenção Ambulatorial Especializada, por no mínimo dois anos e que tenham seguido protocolos clínicos;
3. indivíduos com IMC 35 kg/m² e com comorbidades, tais como pessoas com alto risco cardiovascular, diabetes mellitus e/ou hipertensão arterial sistêmica de difícil controle, apneia do sono, doenças articulares degenerativas, sem sucesso no tratamento clínico longitudinal realizado por no mínimo dois anos e que tenham seguido protocolos clínicos.
Atendidos esses critérios e uma série de exigências extras (como o compromisso com os cuidados pós-operatórios), o paciente é encaminhado para o Sistema de Regulação Estadual (CROSS), para avaliação dos hospitais estaduais, onde é realizado o atendimento. Perguntamos, mas não tivemos retorno na resposta oficial, sobre o hospital onde costumam ser realizadas as cirurgias encaminhadas por Guarulhos. No entanto, informação de 2019 aponta que o Hospital Ferraz de Vasconcelos era, na época, a referência para pacientes de Guarulhos e outras cidades do Alto do Tietê.
A própria resposta oficial da Prefeitura de Guarulhos resume as exigências para indicação para a cirurgia: “o paciente já precisa ter recebido orientações e apoio para mudança de hábitos, realizado dieta, acompanhamento psicológico, atividade física e, se necessário, utilizado medicamentos, tudo isso por pelo menos 2 anos”.
Números de cirurgias bariátricas em moradores de Guarulhos
Em 2025, até junho, foram realizadas 12 cirurgias pelo SUS, em pacientes que indicaram Guarulhos como local de residência. O mês com mais cirurgias foi março passado, com cinco procedimentos. O levantamento foi feito por Guarulhos Todo Dia, através do Datasus. O número indica uma retomada do ritmo de cirurgias anterior à pandemia de Covid 19. A pandemia provocou uma grande queda na realização de cirurgias em geral, nas redes privada e pública de saúde. Veja os números de cirurgias bariátricas de moradores de Guarulhos, realizadas entre 2018 e este ano (até junho):

Os números parecem surpreendentemente pequenos, considerando a população da cidade. E, como apresentamos em outro texto deste Especial Obesidade, considerando a estimativa de que cerca de 418 mil moradores de Guarulhos têm obesidade. Mesmo se levarmos em conta os dados deste ano de 2025, que apresentam ritmo semelhante aos de 2018, pré-pandemia (média de duas cirurgias por mês), o número de cirurgias anuais é muito baixo.
Só para se ter uma ideia, neste ritmo, se um terço dos 418 mil guarulhenses com obesidade (139.333) tivessem indicação de cirurgia, seriam necessários cerca de 5.800 anos para todos serem atendidos. E também seria preciso que nenhum novo morador tivesse indicação de cirurgia bariátrica neste período.
Para fazer uma comparação, Guarulhos Todo Dia fez um levantamento também sobre as cirurgias realizadas em moradores de Campinas, que tem um número de habitantes próximo ao de Guarulhos. Em 2018 foram 20 cirurgias pelo SUS em moradores de Campinas e 23 de Guarulhos. E em 2019 foram 12 cirurgias em campineiros e o mesmo número em guarulhenses. No pós-pandemia, parece que Campinas está com mais dificuldade em retomar o ritmo: em 2024, foram 6 cirurgias de Campinas (17 de Guarulhos) e em 2025, até junho, foram 3 cirurgias de Campinas (12 de Guarulhos). De qualquer forma, os números demonstram que o baixo número de cirurgias bariátricas não é exclusividade do sistema público de saúda da nossa cidade.
Outros dados, além dos números nacionais, indicam que o problema é generalizado. Em São Paulo, estado mais rico da Federação, foram realizadas 2.005 cirurgias bariátricas pelo sistema público de saúde no ano passado. Este ano de 2025, até junho, foram 1.266 cirurgias. A população estimada do estado para 2025 é de 46.081.801 habitantes.
Obesidade tratada como um problema central de saúde
Para o Dr. Luiz Vicente Berti, diretor e ex-presidente da SBCBM, o grande problema da cirurgia bariátrica no SUS é o tempo que se demora para se conseguir fazer a cirurgia: “entre sair do postinho e chegar aonde se realiza a cirurgia, são anos. Estes pacientes geralmente pioram muito das suas doenças. Pioram muito da diabetes, pioram muito da pressão, pioram muito da gordura no fígado. E muitos destes pacientes, neste meio do caminho, vão ter que fazer diálise, porque seu diabetes já afetou seus rins. São pacientes que vão ter derrame, que vão ter infartos, que vão ter uma série de doenças. Todos os dias esses pacientes são internados, gerando gastos vultuosos, dentro de uma economia que a gente não tem tanto dinheiro sobrando assim”.
O especialista defende que sejam criados centros de tratamento de obesidade. “Um único lugar, onde ela é encaminhada para esse lugar, onde se faz uma medicina para o tratamento da obesidade, seja ele clínico ou cirúrgico. Mas aquela pessoa que olhar esse paciente, possa dizer: ‘esse paciente é para tratamento clínico, esse paciente é para um balão, esse paciente é para um tratamento cirúrgico’. E aí, nós, com certeza, diminuiríamos muito a fila, diminuiríamos muito os custos dessas complicações da obesidade”, afirma Luiz Vicente Berti.
Leia mais: Dificuldade de acesso às cirurgias bariátricas na rede pública de saúde – em Guarulhos e em todo o paísCirurgia bariátrica: um tratamento eficiente contra a obesidade