Se a temperatura média da Terra aumentar acima de 2º C (graus Celsius), 100% da população de Guarulhos estará exposta a chuvas extremas. Isso porque praticamente todos os habitantes da cidade vivem em área urbana, com riscos aumentados para esse tipo chuva, em razão do aquecimento global.
“Chuvas extremas”, no caso, significa pelo menos 96 mm de chuva em um único dia. Segundo o modelo meteorológico, se tornarão mais frequentes situações como a que a cidade enfrentou no dia 26 de janeiro passado, um domingo. Naquele dia, chuvas de 108 mm na região central – e em volumes parecidos em vários bairros – provocaram enormes transtornos.
Trechos da Via Dutra e do Corredor Ayrton Senna/Carvalho Pinto estarão expostos a inundações de até meio metro de altura. Eles representam 29,3% dos trechos de rodovias que cortam Guarulhos. O mesmo vale para avenidas importantes, como Benjamin Harris Hunnicut, na Vila Rio de Janeiro, ou Pedro de Souza Lopes, na Vila Galvão. Cinco por cento dos 134 quilômetros de linhas de transmissão de energia na cidade estarão sujeitas a danos, por temperaturas extremas e áreas com ameaças de deslizamento de terras.
Estas previsões, baseadas em dados, estão em uma nova plataforma, lançada esta semana, com informações sobre os riscos climáticos e de natureza em todo o território brasileiro, caso as negociações internacionais para mudanças climáticas não consigam adotar medidas que limitem o aquecimento global a 1,5º C, como previsto no Acordo de Paris. Estas negociações vão ocorrer na semana que vem, na COP 30, em Belém. A cidade já está sediando uma Cúpula do Clima, nestes dias que antecedem o início da COP.
Riscos climáticos
A plataforma “Brasil em um Mundo +2º C” é um portal de dados que foi lançado em Belém, por iniciativa da Fundação Itausa e a Lobelia Earth. A ferramenta permite visualizar os impactos do aquecimento global no território brasileiro, com informações sobre riscos de aumento extremo de temperatura, chuvas extremas, deslizamentos de terra, enchentes e queimadas.
A plataforma mostra a situação atual no Brasil e a compara com as projeções com um cenário acima de 2º C de aumento de temperatura média do planeta. Atualmente, 85% da população brasileira vive em cidades. São mais de141 milhões de pessoas. Hoje, 53,1% dessas pessoas vivem em áreas sujeitas a precipitações extremas. Com aumento acima de dois graus Celsius na temperatura, essa porcentagem subiria para 70%. Em relação à exposição a temperaturas extremas, os números subiriam dos atuais 28,7% da população urbana para 60,3%. Já as pessoas sujeitas a riscos por deslizamento de terra passariam de 12% para 13,8%. O crescimento do número de ameaçados por enchentes seria menor: dos atuais 4,3% para 4,6%.
Em relação à temperaturas extremas, atualmente 60,3% da população brasileira vive em áreas de alto ou extremo nível de ameaça. São 85,3 milhões de pessoas. Com o eventual aumento acima de 2º C na temperatura da Terra, esse número deve superar 170 milhões de pessoas. Cidades como Manaus (AM) e Várzea Grande (MT) estão entre as mais ameaçadas. O risco de deslizamento de terras, que hoje ameaça 13,8% da população urbana brasileira, deve se agravar em cidades como Nova Friburgo e Teresópolis, ambas no Rio de Janeiro. O risco de enchentes deve afetar 4,6% da população urbana do país, atingindo com mais gravidade cidades como Barra (BA) e Santana (AP), onde, respectivamente, 91,6% e 90% da população moram em áreas de risco.
O cenário de +2º C também provocaria um aumento de um milhão de pessoas entre aquelas que vivem em áreas com alta exposição ao risco de incêndios florestais. Isso significaria que 2,7% da população urbana brasileira estaria sujeita a esse tipo de risco.
Por quê +2º C?
O critério para adoção do limite de 2º C no aumento da temperatura da Terra não é aleatório. Para entender isso, é preciso ter algumas informações básicas sobre o aquecimento global e as mudanças climáticas. O principal acordo internacional em vigor no combate às mudanças climáticas é o Acordo de Paris, resultado de negociações entre 195 país, há 10 anos, na COP 21, em Paris. No acordo, os países concordaram em fazer esforços para manter o aumento na temperatura média do planeta “bem abaixo” dos 2º C, na comparação com a temperatura média registrada no período pré-industrial. Ou seja, antes da Revolução Industrial, que ocorreu a partir do período de 1760 a 1840.
A Revolução Industrial é referência porque foi a partir desse momento que a economia mundial mudou. De uma sociedade baseada na agricultura, passamos por uma revolução tecnológica e a economia passou a ser dominado pela indústria e pela manufatura mecânica.
Além do aumento na produtividade, essa mudança trouxe aumento no volume de consumo. Produzimos muito mais e passamos a consumir muito mais. Tudo isso movido a muito mais energia. E as fontes dessa energia foram carvão, gasolina, diesel e querosene de aviação (combustíveis fósseis), entre outros. No consumo, cada vez mais usamos cada vez mais produtos plástico (petróleo), necessitamos cada vez mais de cimento, passamos a comer cada vez mais carne.
Todas essas atividades são geradoras, de alguma maneira, de um grupo de gases, chamados “gases de efeito estufa”, que são principalmente: dióxido de carbono, óxido nitroso e metano. O aumento da presença destes gases na atmosfera, a partir da Revolução Industrial, é o principal motivo para o para o aquecimento global. Quando emitimos esses gases, o volume na atmosfera aumenta e eles permanecem presentes por muito tempo. Com o acúmulo, cresce a capacidade que eles têm de aumentar a temperatura no planeta, em razão do efeito estufa.
O efeito estufa é um fenômeno natural que, na verdade, é importante para garantir a vida na Terra. Os raios do Sol atingem a superfície da Terra e são rebatidos de volta para o espaço. Mas os chamados “gases de efeito estufa” não permitem que parte desses raios saia da atmosfera terrestre e o calor gerado por esses raios fica retido. Eles funcionam mesmo como o vidro de uma estufa, retendo parte do calor. Por isso, o nome. Sem o efeito estufa, a temperatura na Terra seria cerca de 18º C mais baixa, inviabilizando a vida em boa parte do planeta.
Só que, em excesso, os gases do efeito estufa vão aquecendo cada vez mais o planeta e isso gera mudanças no clima. Mudanças de todos os tipos: nas correntes marinhas, na circulação dos ventos, na exposição da superfície da Terra aos raios solares, etc. Portanto, quando se fala em aquecimento global, não significa apenas que “vai fazer mais calor”. O aquecimento da temperatura média do planeta (aquecimento global) gera as mudanças climáticas, que podem provocar tempestades nunca antes vistas ou secas históricas, ondas de calor em áreas que tinham temperaturas amenas e ondas de frio inesperado em regiões tropicais.
Os estudos científicos criaram cenários para essas mudanças. E foi se chegando a um consenso de que um aumento de 2º C na temperatura média da Terra, em relação ao período pré-industrial, já teria consequências catastróficas. E, na verdade, o limite mais seguro seria abaixo disso. Essa avaliação, aliada à muita resistência de alguns países na negociação, foi o que levou ao que foi acordardo em Paris, para se chegar “bem abaixo” dos 2º C e, se possível, a 1,5º C. Veja abaixo, nesse gráfico do World Resources Institute (instituto internacional de pesquisas dos Estados Unidos, criado em 1982), a diferença de cenários para as mudanças climáticas no planeta, considerando os limites de 1,5ºC e 2º C.

Gráfico: World Resources Institute
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